segunda-feira, 9 de junho de 2008

Um sonho trágico


Em algum momento desta vida repleta de ironias e contradições, algumas pessoas se deparam com escolhas difíceis. De uma hora para outra, baseada no rumo que tomamos e nas encrencas que nos metemos de vez em quando, chegamos a uma encruzilhada em que decisões drásticas ou desumanas, talvez, precisem ser tomadas para que continuemos a viver. Este é o espírito de O sonho de Cassandra (Cassandra’s Dream, 2008), filme do diretor, comediante, roteirista, ator e músico Woody Allen e que estreou nos cinemas do país nesta última sexta-feira.
Depois do sucesso do primeiro drama lançado em 1988, Crimes e Pecados, onde um médico livrava-se da amante e de Match Point, (2005) onde um professor de tênis matava a namorada grávida e que se consagrou com inúmeros elogios da crítica, Allen procurou seguir a mesma fórmula sombria. Também filmado em Londres, O sonho de Cassandra possui o mesmo fio condutor do filme antecessor que consagrou Scarlett Johansson. Da mesma forma que Match Point, os motivos que levam os protagonistas a providenciarem a morte de um inimigo do tio milionário que lhes prometeu ajuda financeira são os mesmos: a ambição por uma vida melhor, coisa que, rapidamente, só o dinheiro pode fornecer. Com isso, já podemos até imaginar como tudo vai terminar.
Ian (Ewan McGregor) e Terry (Colin Farrell) são dois irmãos da classe trabalhadora londrina que batalham por futuros melhores. Ian é um ajudante frustrado que trabalha no restaurante da família enquanto Terry é um mecânico viciado em jogos. Ganham juntos pequenas fortunas que logo perdem em novas apostas. Desta forma, um dia Terry contrai uma dívida altíssima que não possui condições de pagar e Ian também necessita de ajuda financeira para poder abrir o próprio negócio e se livrar do restaurante para sempre. É aí que entra a participação decisiva do tio Howard, (Tom Wilkinson), milionário da família que possui rabo preso com um funcionário de um dos seus negócios. Sem restar muitas alternativas, os irmãos logo se vêem obrigados a cooperar com o tio, que propõe que os sobrinhos assassinem o tal sujeito em troca do dinheiro que necessitam para recomeçarem suas vidas. A intenção de Allen continua sendo a mesma: tratar das neuroses e problemas comportamentais, sempre com um tom de humor negro e crítica sutil.
O filme não empolga e está longe de ser uma obra prima do diretor, que não devia estar em um dia muito inspirado quando resolveu ir com o filme até as últimas conseqüencias. Inclusive, foi muito mal recebido pela crítica. Mas carrega um drama sólido que faz com que o espectador aguarde ansioso pelo final da trama. No fim das contas, deduz-se que Allen não precisa acertar sempre. Até porque com um currículo de 38 filmes quem se importa se um ou outro não conseguiu atingir expectativas? Já é um enorme feito que, aos 72 anos de idade, Woody Allen consiga filmar anualmente. A prova de sua genialidade inquestionável é que o seu 39º filme, Vicky Cristina Barcelona, foi muito bem recebido este ano em Cannes e já dizem por aí que foi um de seus mais agradáveis trabalhos, como há muito tempo não se via. Com isso, só nos resta agora esperar pra ver.

Foto: Terry (Colin Farrell) e Ian (Ewan McGregor)

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Adeus a um grande mestre

Morreu neste último domingo (01/06), aos 71 anos, um dos últimos grandes ícones da moda mundial, o senhor Yves Saint Laurent. Ele havia sido diagnosticado com um tumor cerebral ainda no ano passado. Ao revolucionar o estilo das mulheres do mundo inteiro no século XX, suas criações ganharam o status de arte. Junto com Christian Dior e Coco Chanel, ele fez parte da elite de estilistas que fez de Paris a capital mundial da moda. Da princesa Grace, de Mônaco, a atriz Catherine Deneuve, as criações de Saint Laurent vestiram diversas mulheres famosas, mas ele também foi o primeiro estilista a tornar as marcas de luxo mais acessíveis ao grande público.
Ele adquiriu fama aos 21 anos de idade e construiu um império de roupas, perfumes e acessórios. Começou sua carreira trabalhando para Christian Dior, de quem virou assistente-chefe. Com a morte de Dior, em 1957, ele se tornou o estilista-chefe da marca e rapidamente ofuscou seu mentor. Yves Saint Laurent, que se aposentou em 2002, é considerado o responsável por uma mudança eterna nas vestimentas femininas, introduzindo as calças compridas para o dia e o smoking como opção mais elegante. Ele também popularizou as jaquetas de safári e as botas de cano alto. Suas blusas transparentes tornaram a semi-nudez aceitável na alta sociedade. Além disso, simplificou os trajes de gala e fez de seus ternos de ombro quadrado um clássico.
Mas, como nem tudo pode ser perfeito, o grande estilista sofria de depressão profunda e passou por tratamento contra o alcoolismo. Ele também tornou-se ainda mais recluso no final de sua vida. Seu companheiro de longa data, Pierre Berge, falou à rádio France Info que enquanto Chanel havia dado liberdade às mulheres, Yves Saint Laurent foi o responsável por dar-lhes poder. Uma missa em memória dele será realizada na sexta-feira na igreja Saint Roch em Paris, templo tradicional de artistas e músicos. Para mim, deixo aqui um lamento pela sua perda, mas também um agradecimento por termos tido um inquestionável gênio na construção de belíssimas peças de vestuário que incrementaram, ainda mais, tanto o universo masculino quanto o feminino.
Foto: Yves Saint Laurent (1936-2008)