sábado, 23 de agosto de 2008

Projeto Ave Sangria – A grande descoberta


Como estudante de jornalismo, chega uma hora em que precisamos nos organizar e ver do que realmente gostamos para decidir o que escolher para o famoso e tão esperado projeto experimental da faculdade. Tendo isto em vista, ainda no início do curso procurei pensar em que tema me debruçaria para produzir um ótimo projeto. Foi aí que surgiu a idéia de pesquisar e apresentar ao mundo a carreira de uma das bandas mais expressivas do Recife da década de 70, o Ave Sangria. Resolvido o tema, convidei mais dois grandes amigos para se juntarem a mim nesta empreitada e eis que surge o grupo formado por mim, Thiago Barros e Raynaia Uchôa.
Meu interesse pela banda não surgiu por acaso. Tudo começou há alguns anos atrás quando, por intermédio de meu pai, o senhor Leonardo Cavalcanti, homem vivido e boêmio, eu pude ser apresentada ao grupo. Me lembro como se fosse ontem. Eu, uma garotinha curiosa de uns 11 anos, ao passar pela sala de minha casa, me deparei com um som estranho, vindo de uma vitrola antiga e de onde uma voz cantava uma letra debochada, mas profunda e que me chamou atenção. Ao parar para analisar a música percebi que meu velho e maduro pai a escutava deitado, tranquilamente, em uma rede que era seu local favorito na varanda de nossa residência. Nesse momento, eu pude escutar a voz cantando “Era o barba negra com a sua turma e suas canções, era o barba negra com a sua turma e suas canções...” Foi então que resolvi perguntar ao senhor Léo que música era aquela e que grupo a interpretava. E eis que ele afirmou se tratar da música “O Pirata” escrita e cantada pelo já extinto sexteto Ave Sangria.
Foi amor à primeira ouvida. Depois desse dia, passei a querer saber toda história daquele grupo tido como transgressor para um momento em que o Recife vivia a pior fase política da história do país, a ditadura. Meu pai me contava algumas curiosidades, já que ele tinha presenciado o grupo na ativa e, inclusive, conhecia os músicos. Depois de muito ouvir falar, resolvi que uma banda que havia sido tão importante para a formação de um novo e peculiar estilo musical, assim como tantas outras, não deveria cair no esquecimento. Naquela época, aportou no Brasil o movimento contracultural dos anos 60, que foi de fundamental importância para que os jovens tomassem uma atitude contra as condições de censura e repressão vividas. Através dele, muitos perceberam que podiam arrancar de livros e revistas escritas por uma geração mais velha de rebeldes um novo estilo de vida. Com a radicalização política pós AI-5 restaram poucas saídas para se conviver com o regime: confronto, conformismo e alienação, ou a liberalização geral. Grande parte da juventude desiludia-se com o jogo político. Foi então que surgiu o grande vetor do desbunde: o festival Woodstock. Ele foi um dos grandes responsáveis por transmitir um intuito psicodélico aos grupos que construíam uma nova cena musical em Pernambuco, composta de sons que mesclavam o rock com outros estilos. Estes grupos e, entre eles, o Ave Sangria, foram inclusos em um movimento denominado “Udigrudi”, denominação, digamos nordestina, para o que seria “Underground” naqueles tempos. E neste cenário, o Ave Sangria foi responsável por injetar, através da música, atitude e desligamento com relação ao que se fazia musicalmente nestes anos tão conturbados. Cercados de estereótipos, o grupo foi tão expressivo em sua curta existência que passou a carregar a fama de serem os Rolling Stones do Nordeste, justamente por possuírem uma postura tida como radical e chocante para os padrões da sociedade naquele instante.
Entretanto, ao contrário do que muitos pensam, a turma udigrudi dos 70 não se preocupou em realmente cerzir uma cena local através de manifestos ou trajes com que fossem identificados. Eles, simplesmente, se prontificaram a criar no Nordeste brasileiro o que ainda não havia sido feito antes. E inovaram. A cena que houve foi uma grande colcha de retalhos, de muitas tonalidades e feita com tecidos de procedências variadas. E os shows tanto podiam rolar no Drugstore Beco do Barato, no pátio de São Pedro, em Olinda, em Fazenda Nova ou no suntuoso teatro Santa Isabel. Desta forma, nosso projeto está apenas começando. Não há como, neste curto texto, citar todos os motivos, características e fatos que fizeram da banda o conjunto único e original que foi no início dos anos 70. Aos poucos, nós vamos a fundo nesta pesquisa que vai procurar trazer à tona a trajetória completa desse grupo que se formou na I Feira Experimental de Música do Nordeste acontecida no teatro de pedra de Nova Jerusalém, em 11 de novembro de 1972, e findou com um grande show no teatro Santa Isabel, Perfumes e Baratchos, em dezembro de 1974.

domingo, 20 de julho de 2008

Um romântico Tudor


Muito já se produziu sobre filmes de época holywoodianos. Toda aquela coisa de Idade Média, Renascença Iluminismo, Revolução Francesa....grandes atores já passaram por, pelo menos, um filme que retratasse tempos de outrora. Mas, nunca se falou e se especulou tanto quanto a famosa história do soberano inglês Henrique VIII e sua curiosa e polêmica amante, Ana Bolena. A última produção que retrata (ou ao menos tenta retratar) esta relação histórica, A Outra (The Other Boleyn Girl, 2008), estreou nos cinemas no dia 13 de junho deste ano, é dirigida por Justin Chadwick e tem um elenco encabeçado por Natalie Portman, Scarlett Johansson e o insosso Eric Bana.
Um detalhe que muitos não se deram conta na verdadeira história, pelo simples fato de ter sido tão pouco divulgado, é que, durante o século XVI, entre o relacionamento do rei e a cortesã estava presente a irmã mais nova desta, Maria Bolena. E mais. Maria, segundo os livros históricos, passou pela cama de Henrique muito antes de Ana, a qual ganhou fama por te sido responsável pela separação entre a Inglaterra e o catolicismo e, em decorrência, pela criação da Igreja Anglicana. E é nesse terreno que ainda não havia sido explorado que a trama se desenrola. Até aí, tudo bem.
Entretanto, as duas irmãs, Natalie no papel de Ana e Scarlett no de Maria, lutam entre si pelo “amor” do rei, interpretado por Bana. Mais uma vez a indústria cinematográfica americana procura adocicar tudo, misturando a todo jogo de ambição e interesses o sentimento maior do mundo: o amor. Complicou. Na vida real, a relação entre os três não passou de uma substituição de uma amante oficial por outra. Frustrado pelo fato de sua esposa, a rainha Catarina de Aragão, não poder gerar um herdeiro homem, Henrique VIII viu a esperança de legar um novo rei em uma amante. Ana, que havia feito parte da corte francesa da rainha Claudia de Valois, ao regressar tempos depois a Inglaterra, tomou o lugar da irmã, que ao que tudo indica, deixou a corte inglesa grávida de Henrique VIII, que a essa altura já estava perdido de amores por Ana, e foi morar no interior. Ana, por sua vez, após ter conquistado o rei, o título de rainha e de ter dado à luz aquela que viria a se tornar a rainha Elizabeth I, caiu em desgraça, foi acusada e condenada à morte por adultério, incesto e feitiçaria. Um desfecho nada poético.
Este tema já foi explorado em outras produções, mas nunca antes haviam incluído a participação de Maria Bolena. O diretor Justin Chadwick é quase um novato. Dentre os seus trabalhos anteriores encontramos uma ponta como ator no complexo filme do diretor Mike Figgis, A Perda da Inocência, de 1999, e uma série para televisão em que também dirigiu, Bleak House, em 2005. Mas, na mesma proporção em que A Outra enfeita uma dramática passagem da história inglesa, também pode-se dizer que entretém (obviamente para aqueles que curtem uma novela repleta de choro-rô). Apesar da banalização da história, o filme é bem costurado e a interpretação dos atores principais não fica a desejar, especialmente a das atrizes. É uma boa pedida para quem não se importa com adaptações fiéis à realidade.
Foto: Scarlett Johansson (Maria Bolena) e Natalie Portman (Ana Bolena) : rixa em família

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Um sonho trágico


Em algum momento desta vida repleta de ironias e contradições, algumas pessoas se deparam com escolhas difíceis. De uma hora para outra, baseada no rumo que tomamos e nas encrencas que nos metemos de vez em quando, chegamos a uma encruzilhada em que decisões drásticas ou desumanas, talvez, precisem ser tomadas para que continuemos a viver. Este é o espírito de O sonho de Cassandra (Cassandra’s Dream, 2008), filme do diretor, comediante, roteirista, ator e músico Woody Allen e que estreou nos cinemas do país nesta última sexta-feira.
Depois do sucesso do primeiro drama lançado em 1988, Crimes e Pecados, onde um médico livrava-se da amante e de Match Point, (2005) onde um professor de tênis matava a namorada grávida e que se consagrou com inúmeros elogios da crítica, Allen procurou seguir a mesma fórmula sombria. Também filmado em Londres, O sonho de Cassandra possui o mesmo fio condutor do filme antecessor que consagrou Scarlett Johansson. Da mesma forma que Match Point, os motivos que levam os protagonistas a providenciarem a morte de um inimigo do tio milionário que lhes prometeu ajuda financeira são os mesmos: a ambição por uma vida melhor, coisa que, rapidamente, só o dinheiro pode fornecer. Com isso, já podemos até imaginar como tudo vai terminar.
Ian (Ewan McGregor) e Terry (Colin Farrell) são dois irmãos da classe trabalhadora londrina que batalham por futuros melhores. Ian é um ajudante frustrado que trabalha no restaurante da família enquanto Terry é um mecânico viciado em jogos. Ganham juntos pequenas fortunas que logo perdem em novas apostas. Desta forma, um dia Terry contrai uma dívida altíssima que não possui condições de pagar e Ian também necessita de ajuda financeira para poder abrir o próprio negócio e se livrar do restaurante para sempre. É aí que entra a participação decisiva do tio Howard, (Tom Wilkinson), milionário da família que possui rabo preso com um funcionário de um dos seus negócios. Sem restar muitas alternativas, os irmãos logo se vêem obrigados a cooperar com o tio, que propõe que os sobrinhos assassinem o tal sujeito em troca do dinheiro que necessitam para recomeçarem suas vidas. A intenção de Allen continua sendo a mesma: tratar das neuroses e problemas comportamentais, sempre com um tom de humor negro e crítica sutil.
O filme não empolga e está longe de ser uma obra prima do diretor, que não devia estar em um dia muito inspirado quando resolveu ir com o filme até as últimas conseqüencias. Inclusive, foi muito mal recebido pela crítica. Mas carrega um drama sólido que faz com que o espectador aguarde ansioso pelo final da trama. No fim das contas, deduz-se que Allen não precisa acertar sempre. Até porque com um currículo de 38 filmes quem se importa se um ou outro não conseguiu atingir expectativas? Já é um enorme feito que, aos 72 anos de idade, Woody Allen consiga filmar anualmente. A prova de sua genialidade inquestionável é que o seu 39º filme, Vicky Cristina Barcelona, foi muito bem recebido este ano em Cannes e já dizem por aí que foi um de seus mais agradáveis trabalhos, como há muito tempo não se via. Com isso, só nos resta agora esperar pra ver.

Foto: Terry (Colin Farrell) e Ian (Ewan McGregor)

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Adeus a um grande mestre

Morreu neste último domingo (01/06), aos 71 anos, um dos últimos grandes ícones da moda mundial, o senhor Yves Saint Laurent. Ele havia sido diagnosticado com um tumor cerebral ainda no ano passado. Ao revolucionar o estilo das mulheres do mundo inteiro no século XX, suas criações ganharam o status de arte. Junto com Christian Dior e Coco Chanel, ele fez parte da elite de estilistas que fez de Paris a capital mundial da moda. Da princesa Grace, de Mônaco, a atriz Catherine Deneuve, as criações de Saint Laurent vestiram diversas mulheres famosas, mas ele também foi o primeiro estilista a tornar as marcas de luxo mais acessíveis ao grande público.
Ele adquiriu fama aos 21 anos de idade e construiu um império de roupas, perfumes e acessórios. Começou sua carreira trabalhando para Christian Dior, de quem virou assistente-chefe. Com a morte de Dior, em 1957, ele se tornou o estilista-chefe da marca e rapidamente ofuscou seu mentor. Yves Saint Laurent, que se aposentou em 2002, é considerado o responsável por uma mudança eterna nas vestimentas femininas, introduzindo as calças compridas para o dia e o smoking como opção mais elegante. Ele também popularizou as jaquetas de safári e as botas de cano alto. Suas blusas transparentes tornaram a semi-nudez aceitável na alta sociedade. Além disso, simplificou os trajes de gala e fez de seus ternos de ombro quadrado um clássico.
Mas, como nem tudo pode ser perfeito, o grande estilista sofria de depressão profunda e passou por tratamento contra o alcoolismo. Ele também tornou-se ainda mais recluso no final de sua vida. Seu companheiro de longa data, Pierre Berge, falou à rádio France Info que enquanto Chanel havia dado liberdade às mulheres, Yves Saint Laurent foi o responsável por dar-lhes poder. Uma missa em memória dele será realizada na sexta-feira na igreja Saint Roch em Paris, templo tradicional de artistas e músicos. Para mim, deixo aqui um lamento pela sua perda, mas também um agradecimento por termos tido um inquestionável gênio na construção de belíssimas peças de vestuário que incrementaram, ainda mais, tanto o universo masculino quanto o feminino.
Foto: Yves Saint Laurent (1936-2008)

terça-feira, 27 de maio de 2008

A injustiça que existe dentro de cada um de nós

Hoje eu não vou falar sobre cultura. Vou tocar em um assunto que é mal percebido por muitos. Eu, pelo menos, nunca vi nenhum pesquisador, sociólogo, psicólogo ou o que seja discutir sobre tal questão. Mas, é comprovado que o homem é um ser racional e injusto. Não me refiro ao lado da injustiça humana que todo mundo conhece. O lado que revela injustiças nas bandidagens da política, na falta de cuidados com a saúde pública ou eu um assassinato cometido friamente por um marginal contra um pobre pai ou mãe de família. Não vou falar sobre isso.
Eu quero me referir àquele tipo de injustiça que impera nas relações sociais entre indivíduos. Digo, para alguns o que escrevo é besteira. Mas, para mim é fato que um mundo seria muito melhor se não existissem intrigas, mentiras e as famosas fofocas que destroem boas amizades. É um mal do ser humano. Todo mundo já fez ou faz. A diferença é que são muito poucos os que se dão conta da tamanha pobreza de espírito que existe em alguém que acha normal falar mal de pessoas que, sem surpresas, podem até carregar um bem querer por tal criatura. Aí eu fico me perguntando. Qual o propósito de alguém que pode ferir sentimentos, manchar reputações ou acabar com amizades de anos? Alguns podem arriscar dizer que é coisa de inveja ou que quem faz isso não tem uma vida própria para se preocupar. Daí o tempo livre para soltar veneno. Entretanto, eu afirmo ser maldade. Um tipo discreto, mas maldade.
Acredito que errar, todo mundo erra. Que atire a primeira pedra nesta que vos escreve quem nunca errou ou magoou querendo ou sem querer um bom amigo. Mas, será este um bom motivo para se condenar alguém através de palavras torpes? Todo mundo merece uma segunda chance, a meu ver. Existem aqueles que quando erram levam a sério o mote que diz “É errando que se aprende” e passam a descobrir que uma vida pensada para ser vivida com cautela e bom senso é o verdadeiro caminho da felicidade e do equilíbrio. Outros, só levando muitas pancadas na cabeça para se endireitarem e, ainda assim, nem sempre se tornam boas pessoas. Mas, nem por isso merecem ser rechaçados pelos outros. O que quero dizer com tudo isto é fácil: as pessoas vivem para se condenarem, umas às outras. Quem erra nos dias de hoje é considerado fraco ou, por que não, mau. E, convenhamos, é facílimo apontar com o dedo sujo para quem fez errado. Não deveria ser assim. Um mundo melhor é feito, além de tudo o que conhecemos como estrutura, educação, boa distribuição de renda e etc, das boas relações amistosas que possuímos com nossos iguais. O respeito é a chave dos problemas. Sabemos que para um criminoso que erra existe punição ou, pelo menos, deveria existir justa punição. Mas, o que dizer daqueles que erram besteiras no dia-a-dia? Será que um bom castigo seria espalhar raiva ou calúnias ou seria melhor tentar entender porque o colega não fez certo e conversar? Antes de sacrificar alguém por conta de erros do passado ou do presente é bom pensar que amanhã eu posso ser condenada também pelos meus próprios deslizes. Antes de sair por aí falando mal de alguém é importante que eu saiba que, no dia seguinte, podem estar falando mal de mim mesma. Muito simples.
Depois muitos não sabem por que não fazem amigos ou porque não são bem quistos pelos mais próximos. O que ganham espalhando que fulana está gorda demais ou que sicrana cometeu tolices quando namorava o ex? Para que saber disso? Qual a importância que existe para a sociedade ou para os outros? Nenhuma. Cada um que cuide da sua vida, cada um que lute para fazer o bem e pronto, caso encerrado. Se erramos ou acertamos isso é problema nosso e a vida se encarrega de nos gratificar ou de nos dar o troco. Ao invés de proliferamos a discórdia, deveríamos dar mais atenção aos próximos, especialmente aos que se conhece. Apoio e compreensão são peças fundamentais para se viver em um planeta tão vasto e populoso como o nosso. Afinal, não estamos sós, mas em conjunto e a união é o que faz a força de fato. E que cada um tenha o direito de errar e de encontrar a trilha correta por onde seguir.

domingo, 25 de maio de 2008

O amor que transcende os tempos


O que dizer de um casal que, atualmente, nunca se doa totalmente, protagonizam brigas homéricas, não alimentam a confiança e nem a sinceridade mútua, se ofendem regularmente, não dão mais valor ao respeito e, para completar, não fazem esforço algum para se compreenderem e entender porque é tão difícil estar bem? Alguns diriam que isto é reflexo dos novos tempos que surgem, que o casamento estável mal sobrevive neste século, que as mulheres, agora independentes, não mais necessitam viver a vida inteira ao lado de um homem só e que o bom mesmo é ficar por aí com quem quiser, sem a mínima pretensão de levar a sério um relacionamento. Onde está aquela vontade de conviver harmoniosamente, de curtir as delícias de novas descobertas sexuais, de compartilhar os segredos íntimos, de trocar carinhos e elogios, de dar apoio quando necessário, de estar sempre por perto e de ser feliz com um único parceiro? Eu, particularmente, acho tudo isso lamentável. Sou à moda antiga, como dizem. Acho que a vida é plena quando encontramos uma pessoa especial que nos acompanhará como um amigo, parceiro, amante e confidente para o resto de nossas vidas. O que dizer, agora, do amor incondicional? Para muitos, isto é um conceito ultrapassado e nem existe mais. Mas, no fundo, ainda é o melhor dos sentimentos. Belo, ingênuo e que não tem medo de se atirar no que realmente acredita. Isso, sim. O amor...ah, o amor!
Penso que sejam muitas pessoas que saibam da existência e do trabalho magnífico e singelo do escritor colombiano, natural de Aracataca, Gabriel García Márquez. Autor de grandes romances e ficções, como o aclamado Cem Anos de Solidão, pelo qual levou justamente o prêmio Nobel de 1982, Gabriel possui, entre os tantos trabalhos que escreveu, um livro que trata da incomum existência do amor verdadeiro e puro. O Amor nos Tempos do Cólera foi publicado, pela primeira vez, em 1985 e conta uma belíssima história de paixão e angústias entre um triângulo amoroso. Narrado em terceira pessoa e ambientado no século XIX, no cenário tropical da América Latina, este romance tem muito a nos tocar. A emocionante trajetória amorosa de dois homens e uma mulher pode parecer algo banal para o tempo em que vivemos. Mas, ao passarmos os olhos pelas páginas da obra percebemos o quanto tudo isto é ínfimo diante do amor, repito AMOR, grandioso que existe entre os personagens. Será que, como no romance, seria possível que hoje um amor entre dois indivíduos conseguisse ultrapassar 53 anos de existência? É até difícil de imaginar.
Recentemente, esta obra foi adaptada, grandiosamente, para o cinema. Digo grandiosa porque não são todas as adaptações que chegam as telas que merecem que tiremos o nosso chapéu. Em muitos casos percebemos a distância entre os livros e os filmes. Um dos pontos que contam à favor desta última produção é que a fidelidade às linhas escritas é gigantesca. Assistindo à película sentimos a impressão de que estamos lendo o livro novamente. Filmado em Cartagena, na Colômbia, desde os cenários e a fotografia, passando pelo perfil psicológico dos personagens e pelas falas, tudo está perfeitamente bem enquadrado e no tom certo. A produtora Stone Village Pictures foi a responsável pelo filme. O produtor Scott Steindorff passou três anos tentando convencer o mestre Gabriel García a liberar os direitos autorais. Dirigido por Mike Newell, produção metade estadunidense e colombiana, com o roteiro, mais uma vez, muito bem adaptado por Ronald Harwood, O Amor nos Tempos do Cólera encanta mesmo os que nunca conheceram os escritos do autor. Pela primeira vez, um livro de Márquez foi transformado em um filme por um grande estúdio hollywoodiano. A presença de um elenco forte é mais um bom motivo para se admirar. O ilustre ator espanhol Javier Bardem, recentemente contemplado com o Oscar pela sua atuação em Onde os fracos não têm vez, encabeça um time de prestígio, onde também esta presente a renomada atriz brasileira, Fernanda Montenegro.
Para os céticos e desacreditados, conhecer as indas e vindas da vida de Florentizo Ariza, Juvenal Urbino e Fermina Daza, os protagonistas da trama, não deve representar grande coisa, além de uma história de amor impossível e só existente em dramas. Quanto a mim, tanto a obra quanto o filme, me levaram à percepção do quão vazia é uma vida sem um sentimento tão digno e sem fronteiras como o amor. Enfim, eu não sei vocês, mas, para mim, o amor é fundamental e é a melhor experiência que podemos vivenciar. Já dizia o poeta Vinícius de Moraes.
Foto: Giovanna Mezzogiorno (Fermina Daza) e Benjamin Bratt (Juvenal Urbino)

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Rodrigo Braga e sua natureza plena


Exposta na galeria de arte Amparo 60, a mostra de fotos intitulada “Paisagem” do artista plástico Rodrigo Braga nos revela, como em seus últimos trabalhos, uma total harmonia e criatividade surreal para tratar de temas relacionados à natureza. Mostrando um misto de paisagens, umas clicadas em Minas Gerais e outras em Glória do Goitá, na Zona da Mata, Rodrigo nos abre caminho para uma percepção diferente. Com uma mistura de realidade e discretos detalhes produzidos com a ajuda de efeitos gráficos, ele criou espaços únicos que vão de uma simples erosão de barranco repleto de frutas e legumes variados a uma imagem de uma queda d’água em que, camuflado entre as pedras, encontramos um couro de boi. Desta forma, o jovem artista, que desde a infância possui um vasto interesse por arte, faz diversas intervenções que nos mostra o quanto a fotografia digital converte a obra que está para nascer em uma constante construção de significados.
Em suas outras exposições (Fantasia de compensação, 2004; Da alegoria perecível, 2005) as imagens, muitas vezes consideradas bizarras, nos apresentam a intenção que existe por trás de tudo. Filho de pais biólogos, Rodrigo Braga é reflexo do tempo que viveu. Convivendo diariamente com pessoas ligadas constantemente ao estudo da natureza, ele já sabia que tema seria prioridade para a arte que criaria. A partir daí, os trabalhos que mesclam o contato do homem com os animais e com paisagens se tornariam a pedra fundamental e construíram a marca pessoal de Rodrigo. Assim, antes mesmo de se formar em artes plásticas em 2002, o amazonense de 32 anos, radicado em Recife, já havia descoberto as maravilhas de transformar cenários através da fotografia digital. Ele lança o que pretende comunicar ao produzir uma foto, não apenas nos mostrando uma bela selva ou um abraço caloroso em um bode (foto). O que olhamos não é, exatamente, o que vemos. É necessário captar o que o artista quis nos dizer com a performance exibida.
Este é o espírito das obras dele, que nos legam grande valor estético e simbólico. “Meus trabalhos acabam lembrando que todos nós somos animais e que isto faz parte das questões fundamentais do ser humano”, falou ele. Mas, entretanto, por possuir um teor chocante, algumas fotos nem sempre agradam a todos. Uma das mais impressionantes faz parte do catálogo da série Fantasia de compensação, de 2004, em que Rodrigo compôs a fusão de seu rosto com o de um cão Rotweiller. “Tem gente que gosta, gente que não gosta e ainda aqueles que não entendem nada. Mas, não penso no meu público quando crio”, confessou. Típica atitude de quem encontrou uma área que denota paixão e não necessidade de agradar. Prodígio da arte contemporânea de traços regionais, ele pretende passar em “Paisagem” que o homem e os animais são parte inquestionável de qualquer idéia de lugar. Sendo natural ou, até mesmo, urbano. A paisagem construída que o olhar teima em não enxergar comprova o alcance de mais uma experiência artística de Rodrigo Braga.
Foto: Comunhão/Fotografia/2006 - Rodrigo Braga

Vá lá conferir: Amparo 60 Galeria de Arte
Av. Domingos Ferreira, 92 A /Pina
51.011-050, Recife - PE / Tel: (81) 3325.4728

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Cultural, mas nem tanto

Devido ao fato de que, atualmente, as pessoas passaram a adquirir maior informação sobre artes e cultura através do uso contínuo da Internet, muitos não conhecem um dos segmentos mais prestigiados que existe no jornalismo, o chamado jornalismo cultural. Trabalhar com textos onde é constante o contato com as diversas manifestações artísticas, tais como música, cinema, artes plásticas, literatura e afins pode ser apaixonante. Por esta razão, exercer a profissão de crítico cultural em um Estado como Pernambuco dá a impressão de ser o melhor trabalho do mundo, já que esta é uma terra de forte tradição, composta de características regionais que só são encontradas aqui.
Entretanto, a imprensa de Pernambuco está fadada a ser como muitas outras do Brasil e a dar um tratamento superficial a grandes temas. Isto já é percebido por aqueles, jovens em maioria, que pregam um maior reconhecimento da cultura local pelas próprias pessoas daqui. Mas, existe um motivo para esta mudança de enfoque, por parte dos grandes veículos de comunicação. Tudo começou com o surgimento da indústria cultural, onde a crítica bem embasada escrita por intelectuais, nem sempre jornalistas, que demonstravam grande admiração e conhecimento profundo sobre estas áreas deu lugar a uma simples apreciação das obras de arte ou dos produtos culturais, com a finalidade de orientar a ação dos consumidores. Sendo assim, não é mais a literatura que se aprecia, mas o livro colocado no mercado. Na opinião do jornalista e escritor Nelson Werneck Sodré, morto em 1999, esta imprensa que surgiu foi tomada pela alienação. E uma das medidas deste distanciamento da realidade está no desprezo com que a mídia encara a cultura nacional. Portanto, se todo este processo de transformação das críticas publicadas em jornais e revistas ocorreu nacionalmente, obviamente, Pernambuco não poderia ficar de fora.
Com o objetivo de valorizar a riqueza cultural do Estado, a revista Continente Multicultural é um dos poucos veículos de destaque na região. As matérias publicadas mostram toda a diversidade nordestina, dos grandes artistas plásticos, passando pelas últimas novidades da literatura, dança, teatro, cinema e etc. “Procuramos difundir o que é criado em Pernambuco para apresentar aos pernambucanos”, explica a editora Mariana Oliveira que trabalha na revista há seis anos. Para ela, é importante que se dê atenção ao que é feito por aqui, mas sem deixar de citar o que é produzido nas grandes capitais também. Porém, mesmo sendo considerada um bom veículo que apresenta o que há de melhor em termos culturais, ela ainda não possui uma grande visibilidade. Talvez porque exista uma forte carência de revistas que tratem deste assunto. O grande problema é que o público atual não se interessa tanto em saber quais as últimas novidades que envolvem a cena cultural brasileira e, conseqüentemente, não existe mais aqueles jornalistas ou escritores de antigamente que escreviam críticas e análises que foram tão importantes para adaptar ou condenar as obras que estavam surgindo ao gosto do brasileiro. O que existe agora é um grande número de cadernos de entretenimento que nos apresentam os melhores locais para ir e os melhores produtos para comprar, mas não exibe nada que tenha uma profunda reflexão sobre o que está sendo comentado. “Para que a mídia possa voltar a falar bem de cultura é preciso que exista uma rede que movimente todas as cenas artísticas e eduque as pessoas”, concluiu Mariana.
O jornalista Luiz Joaquim, escreve sobre cinema para o jornal Folha de Pernambuco desde 2004. Como crítico, ao ser questionado sobre o descaso que o cidadão possui em relação à produção de filmes brasileiros ele dispara. “Não devo pautar minha postura como crítico ou repórter a partir das limitações do meu leitor”. Ele ainda acrescenta que não é porque os leitores são despreparados que se vai fazer um texto relapso e que é mais interessante tentar educá-lo com uma escrita fácil e que dê fluidez à leitura. O agitador Roger de Renor afirmou uma vez que a cultura do pernambucano se limita a shows e que todos sofrem uma “síndrome do palco”. Enquanto o país não se educar artisticamente para transferir estes conhecimentos à população, é bom nos acostumarmos aos shows mesmo e torcer para que esta “síndrome” seja passageira.