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Como estudante de jornalismo, chega uma hora em que precisamos nos organizar e ver do que realmente gostamos para decidir o que escolher para o famoso e tão esperado projeto experimental da faculdade. Tendo isto em vista, ainda no início do curso procurei pensar em que tema me debruçaria para produzir um ótimo projeto. Foi aí que surgiu a idéia de pesquisar e apresentar ao mundo a carreira de uma das bandas mais expressivas do Recife da década de 70, o Ave Sangria. Resolvido o tema, convidei mais dois grandes amigos para se juntarem a mim nesta empreitada e eis que surge o grupo formado por mim, Thiago Barros e Raynaia Uchôa.
Meu interesse pela banda não surgiu por acaso. Tudo começou há alguns anos atrás quando, por intermédio de meu pai, o senhor Leonardo Cavalcanti, homem vivido e boêmio, eu pude ser apresentada ao grupo. Me lembro como se fosse ontem. Eu, uma garotinha curiosa de uns 11 anos, ao passar pela sala de minha casa, me deparei com um som estranho, vindo de uma vitrola antiga e de onde uma voz cantava uma letra debochada, mas profunda e que me chamou atenção. Ao parar para analisar a música percebi que meu velho e maduro pai a escutava deitado, tranquilamente, em uma rede que era seu local favorito na varanda de nossa residência. Nesse momento, eu pude escutar a voz cantando “Era o barba negra com a sua turma e suas canções, era o barba negra com a sua turma e suas canções...” Foi então que resolvi perguntar ao senhor Léo que música era aquela e que grupo a interpretava. E eis que ele afirmou se tratar da música “O Pirata” escrita e cantada pelo já extinto sexteto Ave Sangria.
Foi amor à primeira ouvida. Depois desse dia, passei a querer saber toda história daquele grupo tido como transgressor para um momento em que o Recife vivia a pior fase política da história do país, a ditadura. Meu pai me contava algumas curiosidades, já que ele tinha presenciado o grupo na ativa e, inclusive, conhecia os músicos. Depois de muito ouvir falar, resolvi que uma banda que havia sido tão importante para a formação de um novo e peculiar estilo musical, assim como tantas outras, não deveria cair no esquecimento. Naquela época, aportou no Brasil o movimento contracultural dos anos 60, que foi de fundamental importância para que os jovens tomassem uma atitude contra as condições de censura e repressão vividas. Através dele, muitos perceberam que podiam arrancar de livros e revistas escritas por uma geração mais velha de rebeldes um novo estilo de vida. Com a radicalização política pós AI-5 restaram poucas saídas para se conviver com o regime: confronto, conformismo e alienação, ou a liberalização geral. Grande parte da juventude desiludia-se com o jogo político. Foi então que surgiu o grande vetor do desbunde: o festival Woodstock. Ele foi um dos grandes responsáveis por transmitir um intuito psicodélico aos grupos que construíam uma nova cena musical em Pernambuco, composta de sons que mesclavam o rock com outros estilos. Estes grupos e, entre eles, o Ave Sangria, foram inclusos em um movimento denominado “Udigrudi”, denominação, digamos nordestina, para o que seria “Underground” naqueles tempos. E neste cenário, o Ave Sangria foi responsável por injetar, através da música, atitude e desligamento com relação ao que se fazia musicalmente nestes anos tão conturbados. Cercados de estereótipos, o grupo foi tão expressivo em sua curta existência que passou a carregar a fama de serem os Rolling Stones do Nordeste, justamente por possuírem uma postura tida como radical e chocante para os padrões da sociedade naquele instante.
Entretanto, ao contrário do que muitos pensam, a turma udigrudi dos 70 não se preocupou em realmente cerzir uma cena local através de manifestos ou trajes com que fossem identificados. Eles, simplesmente, se prontificaram a criar no Nordeste brasileiro o que ainda não havia sido feito antes. E inovaram. A cena que houve foi uma grande colcha de retalhos, de muitas tonalidades e feita com tecidos de procedências variadas. E os shows tanto podiam rolar no Drugstore Beco do Barato, no pátio de São Pedro, em Olinda, em Fazenda Nova ou no suntuoso teatro Santa Isabel. Desta forma, nosso projeto está apenas começando. Não há como, neste curto texto, citar todos os motivos, características e fatos que fizeram da banda o conjunto único e original que foi no início dos anos 70. Aos poucos, nós vamos a fundo nesta pesquisa que vai procurar trazer à tona a trajetória completa desse grupo que se formou na I Feira Experimental de Música do Nordeste acontecida no teatro de pedra de Nova Jerusalém, em 11 de novembro de 1972, e findou com um grande show no teatro Santa Isabel, Perfumes e Baratchos, em dezembro de 1974.
Meu interesse pela banda não surgiu por acaso. Tudo começou há alguns anos atrás quando, por intermédio de meu pai, o senhor Leonardo Cavalcanti, homem vivido e boêmio, eu pude ser apresentada ao grupo. Me lembro como se fosse ontem. Eu, uma garotinha curiosa de uns 11 anos, ao passar pela sala de minha casa, me deparei com um som estranho, vindo de uma vitrola antiga e de onde uma voz cantava uma letra debochada, mas profunda e que me chamou atenção. Ao parar para analisar a música percebi que meu velho e maduro pai a escutava deitado, tranquilamente, em uma rede que era seu local favorito na varanda de nossa residência. Nesse momento, eu pude escutar a voz cantando “Era o barba negra com a sua turma e suas canções, era o barba negra com a sua turma e suas canções...” Foi então que resolvi perguntar ao senhor Léo que música era aquela e que grupo a interpretava. E eis que ele afirmou se tratar da música “O Pirata” escrita e cantada pelo já extinto sexteto Ave Sangria.
Foi amor à primeira ouvida. Depois desse dia, passei a querer saber toda história daquele grupo tido como transgressor para um momento em que o Recife vivia a pior fase política da história do país, a ditadura. Meu pai me contava algumas curiosidades, já que ele tinha presenciado o grupo na ativa e, inclusive, conhecia os músicos. Depois de muito ouvir falar, resolvi que uma banda que havia sido tão importante para a formação de um novo e peculiar estilo musical, assim como tantas outras, não deveria cair no esquecimento. Naquela época, aportou no Brasil o movimento contracultural dos anos 60, que foi de fundamental importância para que os jovens tomassem uma atitude contra as condições de censura e repressão vividas. Através dele, muitos perceberam que podiam arrancar de livros e revistas escritas por uma geração mais velha de rebeldes um novo estilo de vida. Com a radicalização política pós AI-5 restaram poucas saídas para se conviver com o regime: confronto, conformismo e alienação, ou a liberalização geral. Grande parte da juventude desiludia-se com o jogo político. Foi então que surgiu o grande vetor do desbunde: o festival Woodstock. Ele foi um dos grandes responsáveis por transmitir um intuito psicodélico aos grupos que construíam uma nova cena musical em Pernambuco, composta de sons que mesclavam o rock com outros estilos. Estes grupos e, entre eles, o Ave Sangria, foram inclusos em um movimento denominado “Udigrudi”, denominação, digamos nordestina, para o que seria “Underground” naqueles tempos. E neste cenário, o Ave Sangria foi responsável por injetar, através da música, atitude e desligamento com relação ao que se fazia musicalmente nestes anos tão conturbados. Cercados de estereótipos, o grupo foi tão expressivo em sua curta existência que passou a carregar a fama de serem os Rolling Stones do Nordeste, justamente por possuírem uma postura tida como radical e chocante para os padrões da sociedade naquele instante.
Entretanto, ao contrário do que muitos pensam, a turma udigrudi dos 70 não se preocupou em realmente cerzir uma cena local através de manifestos ou trajes com que fossem identificados. Eles, simplesmente, se prontificaram a criar no Nordeste brasileiro o que ainda não havia sido feito antes. E inovaram. A cena que houve foi uma grande colcha de retalhos, de muitas tonalidades e feita com tecidos de procedências variadas. E os shows tanto podiam rolar no Drugstore Beco do Barato, no pátio de São Pedro, em Olinda, em Fazenda Nova ou no suntuoso teatro Santa Isabel. Desta forma, nosso projeto está apenas começando. Não há como, neste curto texto, citar todos os motivos, características e fatos que fizeram da banda o conjunto único e original que foi no início dos anos 70. Aos poucos, nós vamos a fundo nesta pesquisa que vai procurar trazer à tona a trajetória completa desse grupo que se formou na I Feira Experimental de Música do Nordeste acontecida no teatro de pedra de Nova Jerusalém, em 11 de novembro de 1972, e findou com um grande show no teatro Santa Isabel, Perfumes e Baratchos, em dezembro de 1974.


