quinta-feira, 22 de maio de 2008

Cultural, mas nem tanto

Devido ao fato de que, atualmente, as pessoas passaram a adquirir maior informação sobre artes e cultura através do uso contínuo da Internet, muitos não conhecem um dos segmentos mais prestigiados que existe no jornalismo, o chamado jornalismo cultural. Trabalhar com textos onde é constante o contato com as diversas manifestações artísticas, tais como música, cinema, artes plásticas, literatura e afins pode ser apaixonante. Por esta razão, exercer a profissão de crítico cultural em um Estado como Pernambuco dá a impressão de ser o melhor trabalho do mundo, já que esta é uma terra de forte tradição, composta de características regionais que só são encontradas aqui.
Entretanto, a imprensa de Pernambuco está fadada a ser como muitas outras do Brasil e a dar um tratamento superficial a grandes temas. Isto já é percebido por aqueles, jovens em maioria, que pregam um maior reconhecimento da cultura local pelas próprias pessoas daqui. Mas, existe um motivo para esta mudança de enfoque, por parte dos grandes veículos de comunicação. Tudo começou com o surgimento da indústria cultural, onde a crítica bem embasada escrita por intelectuais, nem sempre jornalistas, que demonstravam grande admiração e conhecimento profundo sobre estas áreas deu lugar a uma simples apreciação das obras de arte ou dos produtos culturais, com a finalidade de orientar a ação dos consumidores. Sendo assim, não é mais a literatura que se aprecia, mas o livro colocado no mercado. Na opinião do jornalista e escritor Nelson Werneck Sodré, morto em 1999, esta imprensa que surgiu foi tomada pela alienação. E uma das medidas deste distanciamento da realidade está no desprezo com que a mídia encara a cultura nacional. Portanto, se todo este processo de transformação das críticas publicadas em jornais e revistas ocorreu nacionalmente, obviamente, Pernambuco não poderia ficar de fora.
Com o objetivo de valorizar a riqueza cultural do Estado, a revista Continente Multicultural é um dos poucos veículos de destaque na região. As matérias publicadas mostram toda a diversidade nordestina, dos grandes artistas plásticos, passando pelas últimas novidades da literatura, dança, teatro, cinema e etc. “Procuramos difundir o que é criado em Pernambuco para apresentar aos pernambucanos”, explica a editora Mariana Oliveira que trabalha na revista há seis anos. Para ela, é importante que se dê atenção ao que é feito por aqui, mas sem deixar de citar o que é produzido nas grandes capitais também. Porém, mesmo sendo considerada um bom veículo que apresenta o que há de melhor em termos culturais, ela ainda não possui uma grande visibilidade. Talvez porque exista uma forte carência de revistas que tratem deste assunto. O grande problema é que o público atual não se interessa tanto em saber quais as últimas novidades que envolvem a cena cultural brasileira e, conseqüentemente, não existe mais aqueles jornalistas ou escritores de antigamente que escreviam críticas e análises que foram tão importantes para adaptar ou condenar as obras que estavam surgindo ao gosto do brasileiro. O que existe agora é um grande número de cadernos de entretenimento que nos apresentam os melhores locais para ir e os melhores produtos para comprar, mas não exibe nada que tenha uma profunda reflexão sobre o que está sendo comentado. “Para que a mídia possa voltar a falar bem de cultura é preciso que exista uma rede que movimente todas as cenas artísticas e eduque as pessoas”, concluiu Mariana.
O jornalista Luiz Joaquim, escreve sobre cinema para o jornal Folha de Pernambuco desde 2004. Como crítico, ao ser questionado sobre o descaso que o cidadão possui em relação à produção de filmes brasileiros ele dispara. “Não devo pautar minha postura como crítico ou repórter a partir das limitações do meu leitor”. Ele ainda acrescenta que não é porque os leitores são despreparados que se vai fazer um texto relapso e que é mais interessante tentar educá-lo com uma escrita fácil e que dê fluidez à leitura. O agitador Roger de Renor afirmou uma vez que a cultura do pernambucano se limita a shows e que todos sofrem uma “síndrome do palco”. Enquanto o país não se educar artisticamente para transferir estes conhecimentos à população, é bom nos acostumarmos aos shows mesmo e torcer para que esta “síndrome” seja passageira.

Um comentário:

Unknown disse...

Excelente texto Rebeca! Sinto que você já devia ter feito esse blog há mais tempo e que não negas o sangue.